março 18, 2026

18 DE MARÇO DE 1314



Há 712 anos, em Paris, Jacques de Molay foi conduzido à fogueira. Não como criminoso, mas como homem que se recusou a morrer mentindo. Durante sete anos de prisão, sob tortura, sob ameaças e sob o peso de uma condenação fabricada por Filipe IV da França e pelo papa Clemente V, ele assinou confissões que jamais corresponderam à verdade! E quando chegou o momento final, diante da multidão reunida na Île de la Cité, ele retratou cada confissão imposta pelo tormento.

Naquele instante, Jacques de Molay não era mais apenas um Grão-Mestre, era a voz de uma Ordem inteira que se recusava a ser sepultada na desonra. O fogo que consumiu seu corpo não apagou nada, irmãos! Apagou apenas a ilusão de quem acreditou que a verdade poderia ser queimada junto com a própria carne.

A perseguição aos Cavaleiros Templários não nasceu da heresia. Nasceu da cobiça de um Rei minúsculo, endividado e da covardia de um papa submisso. Contra eles, Molay opôs algo que nenhuma fogueira alcança:

A integridade absoluta de quem escolheu morrer em pé, a honra que nenhuma câmara de tortura conseguiu arrancar!

Que essa memória nos convoque, hoje, a não curvar o joelho diante do falso, a não comprar paz com traição à própria consciência! Non nobis, Domine.

✠ “Iustus autem meus ex fide vivit.” ✠

“O meu justo viverá pela fé.”

(Hebreus 10,38).



PADRE PIETRO PALAZZINI, JUSTO ENTRE AS NAÇÕES




Pietro Palazzini lavava pratos na cozinha do Vaticano quando os gritos atravessaram as paredes.

Era 16 de outubro de 1943. Roma, ocupada pelos nazis havia apenas cinco semanas, estava prestes a testemunhar um dos seus dias mais sombrios. Pietro correu até a janela — e o que viu jamais o abandonaria.

Camiões militares bloqueavam as ruas estreitas do bairro judeu. Soldados das SS arrastavam famílias para fora das casas. Crianças gritavam pelos pais enquanto eram empurradas para os veículos. Idosos tropeçavam com as mãos amarradas atrás das costas.

Mais de mil pessoas foram levadas naquela manhã.

Dois dias depois, os comboios partiram para Auschwitz concentration camp. Apenas dezasseis regressariam.

Mas Pietro não conseguia parar de pensar naqueles que tinham escapado. Nos que estavam escondidos. Nos que respiravam com medo dentro de uma cidade vigiada por botas e silêncio.

Naquela noite, ele tomou uma decisão que mudaria destinos.

O seminário, a poucas ruas da rusga, tinha paredes espessas, quartos vazios e algo raro naquela Roma ocupada: a proteção simbólica do Vaticano. Pietro começou em segredo, conversando com outros padres. Logo chegou a primeira família — exausta, faminta, desesperada.

Ele levou-os a um quarto no terceiro andar e disse:

“Aqui estão seguros.”

Mesmo sabendo que segurança, naquele tempo, era apenas uma esperança frágil.

Vieram mais famílias. Os Rosenberg. Os Cohen. Os Segre. Cada uma carregando medo, poucas malas e um passado que precisava desaparecer para sobreviver. O seminário transformou-se em refúgio clandestino. Quartos viraram lares improvisados. Depósitos tornaram-se cozinhas. Crianças aprenderam a brincar em silêncio.

Mas esconder não bastava. Era preciso dar-lhes novas identidades.

Pietro nunca tinha falsificado nada. Ainda assim, à luz de velas, estudou certificados de batismo e aprendeu a reproduzi-los com precisão. Apagava nomes. Inventava histórias. Criava vidas novas para salvar as antigas.

Os Rosenberg tornaram-se Romanos.

Sarah Cohen tornou-se Maria Colombo.

Cada documento era um risco mortal. Se descoberto, significaria prisão — ou execução.

O inverno chegou duro. A comida escasseava. O frio invadia os corredores de pedra. Bebês choravam abafados nos braços das mães. Febres espalhavam-se. O medo era constante.

Mas eles estavam vivos.

Em fevereiro, Pietro soube de uma rusga em San Lorenzo: doze famílias descobertas, deportadas. Homens que ele conhecia tinham tomado a mesma decisão que ele — e pagado o preço.

Naquela noite, o medo quase o quebrou. Pensou em desistir. Pensou em mandar todos embora antes que fosse tarde.

Então a pequena Sarah — agora Maria — entregou-lhe um desenho: o seminário, com duas palavras escritas abaixo.

“Casa Segura.”

Pietro guardaria esse papel pelo resto da vida.

Na primavera, a esperança começou a infiltrar-se nos corredores. As forças aliadas aproximavam-se. Pela primeira vez, as famílias sussurravam sobre o “depois”.

Em 4 de junho de 1944, tanques americanos entraram em Roma.

Pietro ficou à porta enquanto as famílias saíam para a luz do sol após oito meses de sombras. Houve lágrimas, abraços, promessas de memória eterna.

Trinta e sete pessoas entraram como fugitivas.

Saíram como sobreviventes.

Depois da guerra, Pietro voltou à rotina discreta: ensinar seminaristas, cumprir tarefas simples, viver sem alarde. Vieram promoções e, em 1973, foi nomeado cardeal pelo Pope Paul VI.

Ele raramente falava da guerra. Mesmo chamado de herói, permanecia silencioso, carregando memórias que não cabiam em palavras: passos no corredor, papéis escondidos no bolso, rostos que não chegaram a tempo.

Em 1985, Israel reconheceu-o como Justo entre as Nações. Encontrou sobreviventes que havia protegido — agora adultos, segurando filhos e netos, vidas inteiras nascidas de um ato de coragem.

“Só fiz o que qualquer pessoa deveria fazer”, disse.

Mas a verdade é outra.

A maioria não arrisca a vida por estranhos.

A maioria não transforma o próprio local de trabalho em refúgio.

A maioria não cria identidades novas enquanto o perigo ronda a porta.

Pietro Palazzini morreu em 2000, aos 88 anos, mais de meio século depois daquele dia em que os camiões avançaram para Auschwitz.

No seu funeral, não foram títulos que falaram mais alto. Foram famílias. Filhos e netos cujos nomes verdadeiros um dia tinham sido sussurrados atrás de portas fechadas.

Falaram de um jovem padre que escolheu coragem quando o silêncio era mais seguro. Que abriu a porta quando o mundo se fechava. Que salvou trinta e sete vidas — e todas as gerações que vieram depois.

Pietro nunca soube se tinha salvado o suficiente. Pensava muitas vezes nos que não chegaram.

Mas trinta e sete pessoas viveram.

E os filhos dessas pessoas viveram.

E os netos também.

Às vezes, a história não é feita por multidões.

É feita por alguém que escuta um grito, olha pela janela — e decide não virar o rosto.

Fonte: Facebook/Sobre literatura


A IMPORTÂNCIA DO PENSAR E CONHECER-SE NA MAÇONARIA - Gilson Alves



Todos nós aqui passamos pelo Primeiro Grau.

Todos nós aqui ficamos ali, sentados em silêncio, aguçando nossos sentidos.

E se nos reportarmos ao mundo profano e, fazendo uma analogia com a Vida Maçônica, numa frase que muitos aqui já escutaram, enquanto alunos, quando um professor dizia: “ 

Façam silêncio; senão, não irão “pegar” o fio da meada”.

Em Maçonaria é a mesma coisa.

Achamos também que, quando somos convidados a ingressar nessa Nobre Arte Real, por sermos homens de bons costumes, não precisamos nos aprimorar, que não precisamos evoluir e por vezes, alguns dizem: 

“Queria ser como aquele Irmão! “ – referindo-se ao seu conhecimento em Maçonaria, mas não se esmera para tal.

Pois bem, um simples exercício pode fazer a diferença: Pensar.

O Ser humano distingue-se dos demais animais pela capacidade de processamento de informações através do ato de Pensar.

Pensar é formar idéias na mente, é imaginar, considerar ou descobrir.

O Filósofo René Descartes disse: 

“Com a palavra Pensar entendo tudo o que sucede em nós, de tal modo que o percebemos imediatamente por nós mesmos: portanto, não só entender, querer, imaginar, e sim também sentir é o mesmo que Pensar”. 

Pensar estabelece relações, as conceitua e encontra um significado para elas. 

Formar relações entre vários conceitos é julgar.

Estabelecer o significado de vários conceitos é raciocinar.

Assim o ato de Pensar implica três funções básicas: Conceituar; Julgar e Raciocinar.

O pensador mexicano Antônio Caso dizia: 

"Liberdade é pensamento. Pensamento é liberdade.

Na essência do pensar está a autonomia." 

Partindo dessa última definição de que na essência do Pensar está a autonomia, na Maçonaria o ato de pensar está diretamente ligado ao postulado da Liberdade. 

Liberdade para desenvolver seus conceitos a partir dos ensinamentos recebidos, porque somos livres e autônomos para falar e assumir posições, sem afastar-nos da Filosofia Maçônica e de seus princípios.

Filosoficamente, a Maçonaria mostra ao homem-maçom que ele tem um compromisso consigo mesmo, com o seu Pensar, o que fazer de sua própria existência. 

Pois, quando o homem prescinde de si mesmo, de seus deveres, quando o homem abre mão da sua liberdade, da quantificação do seu Eu; quando o homem esquece de si próprio, está a negar-se como Ser.

O Primeiro Grau se estereotipa no “conhece-te a ti mesmo”, divisa escolhida por Sócrates. 

O grande pensador ensina ao Maçom-Aprendiz que a primeira coisa a fazer é aprender a Pensar.

Aprendendo a Pensar aprende-se a conhecer, a discernir, a falar. 

Aprendendo a pensar encontraremos, sem dúvida, meios e modos que facilitam a busca, a procura, a investigação, o ponto de chegada.

Assim, nesse vai-e-vem do Pensar, nesse vai-e-vem da busca, o Aprendiz, introspectivamente, passará a conhecer-se melhor.

Conhecer é descobrir o Ser. Assim para o Aprendiz, o descobrimento do Ser é o auto conhecimento e deve levá-lo à introspecção, à análise da sua forma de vida antes da Iniciação. 

Estabelecendo a partir de então os limites entre o profano e o iniciado, corrigindo as eventuais falhas de construção de seu edifício, passando a Pensar e agir dentro dos limites estabelecidos, que pode significar simbolicamente o nascimento do novo Ser.

O Maçom estará pronto para a busca dos conhecimentos da Ordem a partir do Auto Conhecimento e da “Morte” dos resquícios contrários à Filosofia Maçônica inerentes ao profano.

“Conhece-te a ti mesmo” nos leva à conclusão de que se não praticarmos o conhecimento de nós mesmos, se não nos propusermos a esmiuçar o nosso espírito com o objetivo de melhorá-lo, com a intenção de aperfeiçoar nosso intelecto, não projetaremos em nós uma melhoria moral, não conseguiremos desbastar a Pedra Bruta. 

O Primeiro Grau é onde utilizamos com maior propriedade os sentidos da Visão e da Audição.

Com eles desenvolvemos o Pensar, estabelecemos relações e comparações que formarão os alicerces do desenvolvimento e nos ajudarão nos passos seguintes da caminhada. 

Lembrando que todos iniciam na Ordem no Primeiro grau, e cada um tem seu momento de despertar, porque não existe prazo determinado para o seguimento da jornada. 

O que deve acontecer é a maturação do iniciado, uma etapa de cada vez, um degrau após o outro, e mesmo assim sem jamais deixar de ser Aprendiz, sem jamais deixar de utilizar os sentidos da visão e da audição com Sabedoria. 

Cada degrau da escada de Jacob inexiste sozinho, ele sempre será o resultado do somatório do conhecimento adquirido nos Degraus Anteriores. 

Pratique o Pensar para conhecer-se, para então buscar o diferencial, a formatação do novo Eu através do conhecimento, para a transformação, para o renascimento, para a prática da verdadeira maçonaria.

O Pensar, nos traz a reflexão, através de perguntas sobre a capacidade e a finalidade humana que movem o mundo.

São perguntas que nos fazem aproximar dos conhecimentos maçônicos. 

São as perguntas e não as respostas que nos fazem evoluir.

O exercício do Pensar te faz diferente, te faz Novo!

Por isso, na faça de sua vida maçônica, um conjunto de respostas, faça-a de perguntas.

Só assim o seu Templo Interior terá paredes Retas, Belas e Justas. 

Portanto...

Pense...

Reflita...

Pergunte...

Evolua.... , pois desistir da Maçonaria é desistir de si próprio.





março 17, 2026

POR QUE NASCEU A MAÇONARIA - Michael Winetzki



Na noite de ontem, realizei mais uma palestra internacional, com tradução simultânea, no C.E.M.I - Centro de Estudos Maçônicos Internacionais, com sede no México, mas com a presença de irmãos (e irmãs) de toda a América Latina.

O tema da palestra foi "Por que nasceu a maçonaria" e foi uma.dissertacão  baseada em história real, sobre os fatos sociais, políticos e econômicos que permeavam a Grã Bretanha quando do nascimento de nossa Ordem.

Foi a segunda palestra que fiz para o C.E.M.I.. No dia 15 de setembro do ano passado fiz a primeira palestra com tradução simultânea pela IA do Zoom, para aquela instituição.

Em razão da diferença de fuso horário a palestra começou as 23h00 no Brasil e devido ao interesse expresso nas inúmeras perguntas, terminou por volta de duas horas da manhã.

Os irmãos que desejarem os slides da palestra podem solicitar pelo whatsapp 61.9.8199.5133 que terei prazer em enviar.


COMPARTILHAR - Newton Agrella




Muitas vezes amanhecemos com notícias que nos sobressaltam, e fazem-nos pensar quão enfurnados cada um de nós, vive seu mundinho de maneira tão pequena e egoísta.

Grande parte disso se deve ao orgulho, ou à vergonha de expormos nossas fraquezas, e limitações.

Quando não, nos defrontamos com o medo de sermos julgados e de alguma sorte, termos a cabeça colocada a prêmio.

Não raro, emoção e razão caminham desconexas e inibem a possibilidade de compartilharmos tristezas, angústias e frustrações, de maneira simples e natural, sem qualquer resquício de preconceitos.

O ser humano, grosso modo, entende que é maior que si mesmo e poucas são as vezes que consegue externar suas necessidades, senão por algum tipo de pressão, ou quando o coração parece que vai explodir.

A busca não é pela perfeição, até porque ela é inatingível.  

O trabalho sim, é pelo aprimoramento interior, e pela vontade de acertar e erigir um templo mais seguro, consistente, comprometido com uma qualidade de vida cada vez melhor e compartilhar com o semelhante o êxito, a felicidade e o bem estar como instrumentos legítimos da virtude.

Ser "humano", não é apenas uma condição de espécie, mas antes de tudo, estagiar pelos labirintos mais profundos da Consciência.

Esta perfeita imperfeição é a tradução mais exata do que se constitui a nossa natureza hominal e anímica.

O amplo conjunto de correntes filosóficas que compõe a dialética maçônica, propicia aos seus adeptos a chance de exercer a liberdade de pensamento, sem estar vinculado a visões esteriotipadas e muito menos subjugado a dogmas, que impõem a restrição ao direito da argumentação.

"Ser livre e de bons costumes", não é um mero slogan de uma peça publicitária, senão, um preceito ético e moral que estimula o homem a explorar os mistérios da consciência sob a égide espiritual, intelectual e sobejamente especulativa.



CIÊNCIA X RELIGIÃO - Mauricio Nunes



Recentemente, a pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, responsável por avanços promissores no tratamento de lesões na medula espinhal, foi questionada no programa Roda Viva não exatamente sobre sua descoberta — mas sobre o fato de a proteína estudada ter formato de cruz. Em poucos minutos, o foco saiu da ciência e foi parar na velha suspeita: não estaria ela misturando religião demais na conversa?

Mas por quê?

Desde quando reconhecer beleza, simbolismo ou até transcendência em algo invalida uma pesquisa científica? A ciência pede método e evidência. Não pede que a alma fique do lado de fora aguardando autorização.

Esse episódio me fez lembrar de Tomás de Aquino, um homem que, séculos atrás, ousou algo que ainda hoje soa revolucionário: pensar Deus sem medo.

No século XIII, quando muitos temiam que a razão pudesse ameaçar a fé, Tomás fez o movimento inverso. Em vez de afastá-la, convidou-a para a mesa. Não inventou uma filosofia do zero, como faria séculos depois René Descartes com seu célebre “penso, logo existo”. Tomás preferiu construir pontes. Aproximou o pensamento robusto de Aristóteles — que já era complexo para muita gente — da tradição cristã.

O resultado dessa engenharia intelectual foi batizada de Tomismo.

Ok, admito que o nome escolhido talvez não seja dos mais sedutores, mas nessa filosofia — se assim podemos chamá-la — a razão não combate a fé; prepara-lhe o caminho.

Tomás não era ingênuo. Sabia que nem tudo cabe numa equação. A razão pode ir longe — mas não vai até o fim de tudo. Há mistérios que ela aponta, mas não esgota. E há verdades que só se deixam conhecer pela fé. E aqui está o pulo do gato: para Aquino, razão e fé não brigam, se completam. São duas asas. E, convenhamos, ninguém voa com uma só.

Elas não são inimigas mortais, são mais como parentes que discutem no jantar de domingo, mas continuam morando na mesma casa.

O curioso é que transformamos tudo num duelo dramático. “É ciência!” grita um lado, como se estivesse defendendo a última fatia de pizza racional do universo. “É religião!” rebate o outro, com a convicção de quem já reservou lugar na eternidade.

Como se Deus estivesse ameaçado por um microscópio. Ou como se um telescópio pudesse finalmente anunciar: “Senhoras e senhores, encontramos o sentido da vida. Está a 12 bilhões de anos-luz e fecha às sextas.”

Talvez seja apenas nossa irresistível necessidade de transformar qualquer assunto — inclusive o infinito — numa discussão de reunião de condomínio.

No fundo, se a verdade é uma só, talvez ela esteja assistindo a tudo isso como quem vê duas pessoas brigando pelo controle remoto… enquanto o filme continua passando, indiferente, e nenhum dos dois percebe que a televisão nem estava ligada.

Fonte: A Toca do Lobo - Facebook


março 16, 2026

A IMPORTÂNCIA DA LETRA CURSIVA - Heitor Rodrigues Freire



O desenvolvimento tecnológico, com todas os seus atrativos e nuances, com o passar do tempo acabou ofuscando uma das atividades mais importantes para o nosso desenvolvimento cognitivo: a escrita à mão. Isso vem causando um prejuízo poucas vezes detectado pela invisibilidade com que age, ao substituir a letra cursiva pela letra de forma e pela digitação. Escrever à mão pode até parecer antiquado, mas, sem dúvida, é um dos exercícios mentais mais importantes que podemos realizar. Escrever à mão possibilita à nossa mente uma boa oportunidade para se fazer presente no aqui e agora.

A neurociência aponta que a letra cursiva é crucial para o desenvolvimento cognitivo, ativando áreas cerebrais ligadas à memória, atenção, linguagem e coordenação motora fina, mais do que a digitação ou a letra de forma, pois seus movimentos complexos integram os hemisférios e fortalecem circuitos neurais, facilitando a aprendizagem e a retenção de informações, sendo uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento cerebral. 

Segundo um artigo publicado no Correio Braziliense por Larissa Carvalho, que escreve sobre comportamento e bem-estar, “estudos em grafologia sugerem que a escrita cursiva tende a se associar à agilidade mental e à facilidade para encadear ideias. Como as letras são ligadas, o traço acompanha o raciocínio quase sem pausas, o que pode refletir um pensamento mais contínuo, organizado e focado em conexões rápidas” 

Uma pesquisa recente publicada no Japão com pessoas idosas constatou que as mais ativas e saudáveis, e que mantinham a mente mais afiada, tinham em comum o hábito de escrever à mão diariamente. 

Entre os diversos benefícios da letra cursiva para o cérebro, elencamos alguns:

Ativação neural: a complexidade dos movimentos da cursiva estimula o córtex motor, o cerebelo e outras regiões, promovendo maior conectividade entre os hemisférios cerebrais;

Memória e aprendizagem: a integração sensório-motora e a memória muscular desenvolvidas pela cursiva tornam o cérebro mais receptivo a estímulos, melhorando a retenção de informações e a compreensão de ideias;

Diferenciação da escrita: diferentemente da digitação, a cursiva exige um traçado contínuo e segmentado, o que cria uma memória motora específica e melhora a psicomotricidade; 

Desenvolvimento motor e cognitivo: a escrita contínua (com letras ligadas) exige o controle fino de movimentos, fortalecendo a musculatura das mãos e dedos, além de aprimorar a coordenação olho mão;

Melhora na ortografia e memória: a união das letras ajuda na memorização motora das palavras, reduzindo erros ortográficos ao integrar a grafia com a forma correta de escrevê-las;

Neurociência e a era digital: mesmo em telas, a escrita cursiva digital, especialmente com feedback háptico (toque), pode ativar essas áreas, mas a experiência tátil do papel ainda oferece um estímulo mais rico;

Especialistas alertam para os prejuízos de abandonar a cursiva, pois a falta de treino pode impactar negativamente a capacidade de leitura e escrita de longo prazo, reforçando a necessidade de um equilíbrio com a tecnologia. 

Em resumo, a letra cursiva não é uma habilidade ultrapassada, mas uma ferramenta neuro-cognitiva essencial que fortalece o cérebro e apoia o aprendizado de forma única, sendo mais do que apenas uma caligrafia bonita. Aliás, caprichar na letra é também um excelente exercício.

Além dos benefícios acima, do ponto de vista filosófico, a escrita cursiva representa a fluidez, a individualidade e uma conexão pessoal e ininterrupta com a história e a tradição da comunicação humana. Ela simboliza também: 

Fluidez e continuidade: o movimento contínuo da caneta no papel reflete um fluxo de pensamento ininterrupto, conectando letras e palavras em um único gesto. Isso contrasta com a natureza fragmentada ou "em blocos" da escrita de forma ou digitação;

Individualidade e identidade pessoal: cada pessoa desenvolve um estilo cursivo único. A caligrafia é vista como uma expressão de personalidade, humor e até mesmo do estado emocional do escritor, tornando-a uma assinatura visual de sua identidade;

Tradição e história: a escrita cursiva está profundamente enraizada na história da civilização ocidental, sendo o método padrão de escrita por séculos. Ela representa uma ligação tangível com documentos históricos, cartas antigas e a evolução da alfabetização;

Ato intencional e deliberado: em contraste com a digitação rápida, a escrita cursiva exige um ritmo mais lento e deliberado, incentivando um envolvimento mais profundo e consciente com o ato de escrever e com o conteúdo que está sendo produzido; 

Em essência, a escrita cursiva é vista filosoficamente como um símbolo da humanidade na comunicação: um traço físico e único que conecta a mente, a mão e o papel de uma maneira que as tecnologias modernas muitas vezes simplificam ou tornam anônimas. 

Enfim, caros amigos, o uso de letra cursiva se constitui numa prática que não só aprimora nossa letra, mas nos proporciona um desenvolvimento cognitivo que se traduz em ativação cerebral.

Usemo-la, pois.


IGUALDADE, EM PRINCÍPIO - Newton Agrella





Todos trocamos ideias, impressões, umas mais interessantes outras menos...

Mas lá no fundo, simplesmente compartilhamos, dividimos e convivemos.

A rigor somos todos iguais. 

Todos aqui gostamos de ler, escrever, pensar e sobretudo refletir e ponderar sobre tudo o que experienciamos e nos toca a alma.

Refletimos, como forma de viver a Filosofia da qual somos adeptos, e na medida do possível, expressando-a por escrito ou através de postagens em vídeos ou áudios, mas sempre tendo em mente que somos agentes de uma mesma missão: 

"Difundir a Arte de Especular" - sem nos deixar levar pela vaidade ou por qualquer tipo de sentimento de superioridade, nem tampouco de inferioridade.

O que nos torna iguais é saber que trabalhamos incansavelmente, em prol do contínuo aprimoramento de nosso nível de Consciência.

O que nos diferencia, enquanto seres humanos, são de fato, as "oportunidades", que diante das circunstâncias, umas mais favoráveis outras menos,  podem nos conduzir a experiências distintas.

Fato é, que inobstante a isso, juntos somos sempre muito mais, porém acima de tudo, sempre iguais !!!


março 15, 2026

HARA II (*) - Heitor Freire





O autoconhecimento, quando praticado de forma contínua, torna-se um meio eficaz de evolução espiritual e enriquece naturalmente a vida, uma vez que o aprendizado abre novos caminhos, consolida outros e cria novas perspectivas. 

Assim, percebemos que o corpo humano é uma prova inconteste da existência de Deus. Composto por tantos órgãos, células, moléculas, átomos, neurônios e centros de energia distribuídos ao longo da cabeça, tronco e membros, nosso corpo configura uma miniatura do universo, cujo funcionamento independe da vontade de cada um. Todos os componentes têm vida própria, obedecendo a um ordenamento lógico e natural, que emana de uma fonte primordial: Deus.

Essa energia permeia o universo, envolve o ser humano e se distribui por todo o seu corpo, de forma inteligente e ativa. Cada órgão tem sua individualidade e função, e todos estão irmanados e integrados dentro do corpo de cada pessoa.

Dentro desse universo, o papel do umbigo vai além da psiquê e da biologia. Ele é, também, um ponto cármico, um nó de energias para inúmeras tradições religiosas e culturais. É nessa região da barriga, um pouco abaixo do umbigo, que se concentra a energia vital – o ki dos japoneses, o chi dos chineses e o prana dos indianos. 

O nome do ponto abaixo do umbigo, em japonês, é chamado hara; em chinês é considerado o baixo dantian; e no yoga chama-se chakra esplénico. Esse centro energético é o grande reservatório de ki, chi e prana.

Descobrir e estudar o umbigo está se constituindo para mim num processo enriquecedor para o meu autoconhecimento. O mistério que envolve o umbigo o torna um enigma a ser decifrado. É como se fosse a minha esfinge pessoal. É o meu nó górdio que foi cortado, mas tenho que desatar cosmicamente. 

Na busca de um entendimento maior, encontrei o livro Hara, o centro vital do homem (ed. Pensamento), escrito por Karlfried Graf Durckheim (1896-1988), um ex-diplomata alemão, psicoterapeuta da Universidade de Kiel, e mais tarde prisioneiro de guerra no Japão. Durckheim tornou-se um mestre zen que trabalhou com o conceito do hara como terapia esotérica, estudando e divulgando o seu significado, cujo entendimento tem me proporcionado um grande aprendizado. Ele escreveu:

“O hara liberta o homem da imagem de uma persona, isto é, de todas as posturas internamente não-verdadeiras pertinentes ao papel que alguém exerce no mundo ou que gostaria de representar. O hara possibilita a Gestalt (um conceito psicoterápico focado na responsabilidade do indivíduo, na experiência baseada no “aqui e agora”), que expressa a essência de um homem com singeleza, além de concretizá-la progressivamente. Assim, o homem está livre da obrigação de querer parecer, ou de ser mais do que é.  A timidez, o constrangimento e a falsa submissão desaparecem. O homem que se torna consciente de suas raízes no hara posiciona-se com naturalidade e liberdade, como ele simplesmente é, nem mais nem menos, conquistando por isso sua beleza interna específica. (...)

Resumindo: a fixação no centro significa hara, garante ao homem o prazer de uma força que o torna capaz de dominar a existência de um modo diferente do que consegue com o ego. Ela é uma força que, misteriosamente, sustenta, organiza e forma o homem e que, além de solucionar seus problemas, faz dele um ser total.”

Apresento a seguir, uma prática a ser realizada por quem se interessar pelo hara, obtida pela IA: 

Aplicar tensão ou "setar" o ponto hara (Seika Tanden) envolve técnicas de respiração, postura e foco mental para concentrar a energia vital (ki) cerca de 3 a 4 dedos abaixo do umbigo, no interior do abdômen. Isso proporciona estabilidade, equilíbrio emocional e aumento de vitalidade. 

Aqui estão as formas de aplicar tensão no hara, baseadas em práticas orientais:

1. Respiração hara 

A técnica principal para ativar essa área é a respiração abdominal profunda e consciente.

Postura: Sente-se de forma confortável (como em seiza ou com pernas cruzadas) com a coluna ereta, ou deite-se de costas.

Localização: Coloque as mãos no baixo ventre, logo abaixo do umbigo.

O movimento: Inspire pelo nariz, focando em expandir o baixo abdômen como um balão. Ao exalar, contraia suavemente o abdômen, levando o umbigo em direção à coluna.

A tensão: Mantenha o foco mental e uma leve pressão muscular no hara, como se estivesse "fechando o dreno" de um tanque de energia.

Para quem tiver um interesse maior, recomendo a leitura do livro citado.

(*) Este tema já foi objeto de um outro artigo, que escrevi em 2021.

OS MAÇONS DE CATAGUAZES, MG - Luciano J. A. Urpia



No final do século XIX, a cidade de Cataguases, em Minas Gerais, era predominantemente católica e vivia tempos de radicalismo religioso. Quando o pastor metodista Phelippe Revale de Carvalho chegou à cidade para pregar sua fé, enfrentou a fúria de católicos liderados por um padre intolerante, que viam na nova igreja uma ameaça. Inconformados, um grupo resolveu expulsar o pastor à força, arrastando-o em direção à estação ferroviária para embarcá-lo contra a sua vontade.

Foi então que um grupo de maçons, liderados pelo irmão José Schettine, interveio corajosamente. Eles arrebataram o pastor das mãos dos exaltados e o acolheram no templo da Loja Maçônica Cataguazense, onde permaneceu protegido até que os ânimos se acalmassem. Gesto de coragem e tolerância que marcou profundamente a história da cidade e da própria Loja.

Em sinal de gratidão, no dia 1º de julho de 1895, o pastor Phelippe presenteou a Loja com uma Bíblia, que até hoje é guardada com carinho e exibida apenas em ocasiões solenes. Cem anos depois, em 1995, o episódio foi relembrado, reafirmando os valores de respeito e liberdade religiosa que unem maçons e cristãos para além de qualquer dogma.

Extraído do livro: LASMAR, Jorge. A História do Grande Oriente de Minas Gerais e Outras Histórias. Minas Gerais, Lithera Maciel, 2004.

Fonte: CURIOSIDADES DA MAÇONARIA



AMANHÃ DE ONTÉM - Adilson Zotovici


O Sol, que rei, no céu brilhando

A abrasar a terra, que o seu labor

O passaredo já todo voando 

A brisa matinal com seu frescor...

É o amanhã de ontem...começando 


Vejo ao longe como um vapor,

Do ar vindo da noite, impoluto 

Na rua crescendo peculiar rumor

Um cão sem rumo, mas resoluto

Na praça, da velha acácia, brota flor 


Cada coisa colocada em seu reduto  

Como que anunciando que já é hora

Com o livre arbítrio que desfruto

Retomar minha senda sem demora

Buscar nela assim algum bom fruto 


É a vida que nos espera lá fora 

A levar, cada qual, sua própria cruz

Qual pesará pelos atos de outrora

Que leve, se até aqui então, fizemos jus

Para preparar bom amanhã...agora !


O NÚMERO TRÊS - Kennyo Ismail




Em todo o mundo antigo, independente da região, o número 3 era considerado sagrado. E "tão sagrado era considerado pelos antigos esse número, que o encontramos designando alguns dos atributos de quase todos os deuses" (261).

O número 3 é o principal número na Maçonaria Simbólica, no sentido representativo. Temos as três Grandes Luzes da Maçonaria: o Livro Sagrado, o Esquadro e o Compasso; as três luzes menores, representadas pelas três velas acesas; os três princípios: Sabedoria, Força e Beleza; as três Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Caridade; os três principais oficiais: Venerável Mestre, 1° Vigilante e 2° Vigilante; os três graus simbólicos: Aprendiz, Companheiro e Mestre; as três idades ou grupos de degraus da escada em caracol: três, cinco e sete; as três ordens gregas de arquitetura: Jônica, Dórica e Coríntia; os três assassinos de H.’.A.’.; os três portões do templo; as três janelas do painel simbólico; as três batidas distintas; os três pontos (triponto); as três joias móveis e as três imóveis; sol nascente, sol meridiano e sol poente; manhã, tarde e noite; nascimento, vida e morte; começo, meio e fim; saúde, força e união; etc.

Para Pike, "esta reprodução contínua do número três não é acidental, nem desprovida de um significado profundo; e encontraremos o mesmo repetido em todas as filosofias antigas" (262). Ele interpreta que o 1 é o princípio criativo; o 2, a matéria capaz de formar; e o 3 é "o mundo formado pelo princípio criativo da matéria" (263).

Behring registrou em seu ritual que "a diferença, o desequilíbrio, o antagonismo que existem no número dois, cessam, repentinamente, quando se lhe ajunta uma terceira unidade" e, por isso, o 3 "se tornou a unidade da Vida, do que existe por si próprio, do que é perfeito" (264). Para ele, o 3 é o número da Luz.

E a numerologia maçônica nos traz ainda mais significados. "De um ponto (1) a uma linha (união de 2 pontos), de uma linha a um plano" (265). O número 3 permite a formação da primeira figura geométrica, o triângulo, que é considerada a forma física mais estável. Não por acaso, "não há símbolo mais importante em seu significado, mais variado em sua aplicação, ou mais geralmente difundido por todo o sistema da Maçonaria, do que o triângulo" (266).

Sendo impossível o esgotamento do tema, o número 3 é um convite para reflexão de seus atributos simbólicos, filosóficos e teológicos; bem como de seus derivados, como tríades, trindades e triângulos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(261) MACKEY, A. G. An Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences. New York and London: The Masonic History Company, 1914, p. 784.

(262) PIKE, A. Moral e Dogma. Brasilia: No Esquadro, 2023, p. 578.(263) Idem, Ibidem, p.661-662.

(264) BEHRING, M. Ritual do Gráo de Aprendiz-Maçon. Rio de Janeiro: Delta, 1928, p. 94.

(265) Ritual de Companheiro de Ofício - Rito de York. Brasília: No Esquadro, 2023, p. 99.(266) MACKEY, op. cit., p. 800.

Fonte: *ISMAIL, K. Breviário Maçônico do Século XXI. Brasília: No Esquadro, 2025.*

março 14, 2026

UMA LOJA "SUI GENERIS" - Newton Agrella




Nem faz tanto tempo e tive a chance de visitar uma loja singular, cujo nome era "AO REI DAS FRASES".

Confesso que fiquei pasmo com a quantidade de produtos espalhados nas gôndolas e nas prateleiras da loja.

Um inesgotável repertório de itens que faria a felicidade de inúmeros consumidores.

Após dar uma olhada geral, um prestativo balconista aproximou-se e perguntou-me em tom solene:

"Como posso ajudá-lo ?".

Respondí-lhe que estava apenas dando uma espiadinha, mas nada em especial.

Ao que prontamente ele redarguiu com um ar professoral:

"Ninguém passa por aqui incólume, haverá sempre atrás de você, a busca por uma frase icônica que possa fazer valer o seu dia."

Confesso que fiquei um tanto inquieto com a instigante, para não dizer "insolente" argumentação do balconista.

Parei e pensei comigo: Bem... afinal de contas ele esta aquí pra isso. "Vender frases".

Optei pelo silêncio, agradecí o balconista e saí.

A caminho de casa, detive-me por alguns minutos e comecei a perceber quão necessárias e ao mesmo tempo quão voláteis as Frases são.

Sejam elas motivacionais, espirituais, religiosas, humorísticas, didáticas ou meramente frugais, fato é, que impressiona o tanto que elas servem como muletas para as nossas vidas, ou como analgésicos para aliviar nossas tensões emocionais.

Retomando a caminhada, percebí com certa resistência, que a loja  "AO REI DAS FRASES" não mudou o mundo, mas com certeza, nos deixou um legado, dando conta que, com boa vontade e mesmo destituída de qualquer senso crítico ou de alguma propriedade intelectual,  qualquer clichê vira sabedoria.

Cheguei em casa.