fevereiro 08, 2026

A INFLUÊNCIA ECONOMICA ARABE NO REINO UNIDO

 

Emir do Qatar Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani e Rei Charles III - Foto: Getty Images
Emir do Qatar Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani e Rei Charles III - Foto: Getty Images

Início » CARAS Qatar » Família Real do Qatar investiu 100 bilhões de libras no Reino Unido nas últimas décadas

CARAS Qatar INFLUÊNCIA GLOBAL

Família Real do Qatar investiu 100 bilhões de libras no Reino Unido nas últimas décadas

Entre os investimentos estão aquisições imobiliárias, participações empresariais e projetos de infraestrutura no país; confira

Redação

Muito antes de o Qatar se consolidar como potência de grandes eventos globais, a Família Real do país já compreendia o valor estratégico de se aproximar de outras monarquias tradicionais. Entre todas, uma relação se destacou pelo peso histórico, simbólico e econômico: a construída ao longo de décadas com a monarquia britânica.

Essa aproximação nunca foi apenas protocolar. Ela foi acompanhada de cifras, investimentos estruturantes e uma presença econômica tão profunda no Reino Unido que hoje torna difícil separar diplomacia, negócios e posicionamento estratégico internacional. Estimativas apontam que estruturas financeiras ligadas à Família Real do Qatar investiram cerca de £ 100 bilhões – R$ 718234200000,00 – em ativos no Reino Unido ao longo das últimas duas décadas, segundo levantamento do jornal britânico The Times.

A publicação analisou aquisições imobiliárias, participações empresariais e projetos de infraestrutura no país e constatou que esses investimentos não se dispersaram. Segundo os estudos, eles se concentraram em ativos simbólicos e estratégicos, como: a loja de departamentos Harrods, ícone do varejo de luxo londrino; o The Shard, maior arranha-céu do Reino Unido; participações relevantes em Canary Wharf, coração financeiro de Londres; ativos em infraestrutura, hotelaria e transporte aéreo.

Contribuição bilionária

Em 2022, empresas com participação significativa de capital qatari no Reino Unido contribuíram com cerca de £ 3,4 bilhões – R$ 24,42 bilhões – em impostos pagos ao Tesouro britânico, segundo relatório do Centre for Economics and Business Research. Por trás dessa capacidade financeira está o Qatar Investment Authority, fundo soberano controlado pela Família Real, que administra cerca de US$ 557 bilhões em ativos globais, volume que supera o PIB anual de países como Bélgica ou Suécia.

ESPECULAÇÕES - Adilson Zotovici



Especulações aos milhares

Na Sublime Instituição

Em templos, salas, até bares

Que nos chamam sempre a atenção


Da sociedade quiçá olhares

Curiosidade, especulação

Sem noção e às vezes vulgares

E até maldade, indiscrição


Mas há entre os nossos pares

Uma grande busca, à exaustão

Famosos ou de grande expressão


Pessoa, Dumont...avatares

Personalidades singulares

Como Kardec e Napoleão




DEZ ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO - Noam Chomsky



O linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo Noam Chomsky na sua obra intitulada: "Armas silenciosas para guerras tranquilas" fala sobre as 10 Estratégias de Manipulação da sociedade através da imprensa ou mídia:

1. A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO. 

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”

2. CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES. 

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3. A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO. 

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4. A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5. DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE. 

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

6. UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO. 

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7. MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.

8. ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.

Estimular o público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9. REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10. CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

fevereiro 07, 2026

O ATRASO CULTURAL DO BRASIL - Cesar Romão



O atraso cultural brasileiro é um tema recorrente no debate sociológico, histórico e político nacional. Frequentemente atribuído a fatores superficiais ou a supostas falhas individuais da população, esse atraso possui, na realidade, raízes profundas e estruturais. Trata-se de um fenômeno historicamente construído, relacionado à forma como o Brasil foi inserido no sistema colonial, à manutenção de desigualdades sociais e à concentração do acesso ao conhecimento. 

Aqui analiso as principais causas do atraso cultural no Brasil e discuto caminhos possíveis para sua superação, compreendendo cultura e educação como dimensões centrais do desenvolvimento social e democrático.

Desde o início da colonização, o Brasil foi estruturado como colônia de exploração. Diferentemente de países europeus que, já no início da modernidade, investiam na formação de universidades, imprensa e centros de produção intelectual, o território brasileiro foi mantido à margem da produção cultural autônoma. A ausência deliberada de instituições educacionais e científicas não foi casual, mas uma estratégia de controle político, que visava impedir o surgimento de pensamento crítico capaz de questionar a ordem colonial, ainda presença de maneira subliminar em nosso país. 

A escravidão, que perdurou por mais de três séculos, desempenhou papel central na consolidação do atraso cultural brasileiro. Além da exploração econômica, o sistema escravista produziu analfabetismo estrutural, desumanização social e apagamento sistemático dos saberes africano e dos povos originários. A escravidão impediu a formação de uma cultura democrática, baseada na igualdade de direitos e no acesso universal ao conhecimento a caminho de uma nação independente. 

Historicamente, as elites brasileiras trataram a cultura e a educação como privilégios, não como direitos sociais. O acesso ao conhecimento formal, aos livros e às instituições de ensino permaneceu concentrado em pequenos grupos, funcionando como mecanismo de distinção social. Um processo que pode ser compreendido como monopólio do capital cultural, que contribui para a reprodução das desigualdades e para a exclusão simbólica das classes populares.

Mesmo após a independência, o Brasil manteve uma relação de dependência cultural em relação à Europa e, posteriormente, aos países centrais do capitalismo. Modelos educacionais, artísticos e científicos passaram a ser importados de forma acrítica, enquanto a produção intelectual nacional era frequentemente desvalorizada. Um fenômeno de colonialidade do saber, caracterizado pela hierarquização dos conhecimentos e pela negação da legitimidade dos saberes locais.

Outro fator relevante é a instabilidade das políticas educacionais e culturais. A ausência de projetos de longo prazo, aliada à politização ideológica da educação, compromete a consolidação de avanços estruturais. Soma-se a isso a presença de um anti-intelectualismo difuso, expresso na desvalorização do professor, na hostilidade ao pensamento crítico e na confusão entre conhecimento científico e mera opinião.

O ano de 1500 marca um momento decisivo na história mundial.  Enquanto a Europa vivia profundas transformações culturais, intelectuais e científicas, o território que viria a se tornar o Brasil era incorporado ao sistema colonial português, inaugurando um processo histórico que ajudaria a explicar parte do atraso cultural brasileiro em relação ao continente europeu.

Na Europa, a cultura de 1500 estava fortemente marcada pelo Renascimento, movimento que promoveu a valorização do ser humano, da razão, da ciência e das artes. Inspirados nos ideais da Antiguidade Clássica greco-romana, pensadores e artistas romperam gradualmente com o pensamento medieval, dominado pelo teocentrismo. O humanismo estimulava o estudo da filosofia, da história, da matemática e das ciências naturais, ampliando os horizontes intelectuais da sociedade europeia.

Outro fator decisivo foi à imprensa, criada no século XV, que revolucionou o acesso ao conhecimento. Livros passaram a circular com maior rapidez, permitindo a difusão de ideias, o questionamento da autoridade religiosa e o fortalecimento da educação laica. Ao mesmo tempo, universidades se consolidavam, cidades cresciam e uma burguesia urbana passava a financiar artistas, cientistas e intelectuais. A Europa entrava, assim, na chamada Idade Moderna, marcada pela inovação cultural e pelo espírito crítico.

Em contraste, o Brasil nasce sob uma lógica completamente diferente. Desde o início da colonização, o território brasileiro foi visto pela Coroa portuguesa como uma colônia de exploração, e não de povoamento intelectual ou cultural. 

Não houve, nos primeiros séculos, incentivo à criação de universidades, centros de pesquisa ou produção artística autônoma. A educação ficou restrita à catequese religiosa, sobretudo conduzida pelos jesuítas, com o objetivo principal de controle social e conversão dos povos indígenas.

Além disso, o modelo econômico baseado na monocultura, no trabalho escravizado e na exportação de produtos primários limitou o desenvolvimento de uma elite intelectual ampla e crítica. Enquanto a Europa produzia ciência, filosofia e arte, o Brasil produzia riqueza para a metrópole. O acesso ao livro, à leitura e ao pensamento científico era extremamente restrito, e a circulação de ideias modernas era, muitas vezes, censurada.

Esse atraso cultural não pode ser interpretado como incapacidade do povo brasileiro, mas como consequência direta de opções históricas e estruturais impostas pelo sistema colonial. A ausência de políticas educacionais amplas, o desprezo pelo conhecimento local e a dependência cultural da Europa criaram um descompasso que se prolongou mesmo após a independência.

A diferença entre a efervescência cultural europeia em 1500 e o atraso cultural brasileiro tem raízes profundas na forma como cada sociedade foi inserida na história. Enquanto a Europa se reinventava culturalmente, o Brasil era impedido de construir, de maneira autônoma, seus próprios caminhos intelectuais. Compreender essa origem é essencial para analisar os desafios culturais e educacionais que o país ainda enfrenta no presente.

A superação do atraso cultural brasileiro exige medidas estruturais e de longo prazo. Em primeiro lugar, a educação deve ser tratada como política de Estado, com continuidade institucional independentemente de mudanças governamentais. Investimentos consistentes na educação básica, na formação docente e na valorização do magistério são condições indispensáveis.

Além disso, é fundamental democratizar o acesso ao capital cultural, por meio da ampliação de bibliotecas públicas físicas e digitais, do incentivo à leitura, da valorização da ciência e da ampliação do acesso a bens culturais. A cultura deve ser compreendida como bem público e direito social, não como privilégio de classe.

Outro aspecto central é o reconhecimento e a valorização dos saberes historicamente marginalizados. A inclusão efetiva das culturas dos povos originários, afro-brasileiras e populares nos currículos escolares contribui para romper com a colonialidade do saber e fortalecer a identidade cultural nacional.

É necessário estimular a produção intelectual e científica brasileira, fortalecendo universidades, centros de pesquisa e políticas de divulgação científica. Combater o anti-intelectualismo e promover o pensamento crítico são tarefas essenciais para a construção de uma sociedade democrática e culturalmente emancipada.

O atraso cultural no Brasil não é resultado de deficiência intelectual ou incapacidade histórica de seu povo, mas consequência de escolhas políticas e estruturais realizadas ao longo de sua formação social. A herança colonial, a escravidão, a concentração do capital cultural e a dependência intelectual moldaram uma sociedade marcada pela desigualdade no acesso ao conhecimento.

Superar esse atraso exige reconhecer a cultura como campo de disputa política e investir de forma contínua na educação, na valorização do saber e na democratização do acesso ao conhecimento. Somente por meio dessas transformações será possível romper com o legado histórico da exclusão cultural brasileira e construir um projeto de desenvolvimento verdadeiramente inclusivo.

Em 1471 a Itália já tinha os Museus Capitolinos, em 1506 o Museu do Vaticano, Reino Unido em 1545 os Museus das Armaduras Reais, em 1683 o Museu Ashmolean em Oxford, a França em 1683 o Museu de Belas Artes e Arqueologia, a Rússia o Museu Hermitage em 1764, o Museu Charleston nos Estados Unidos em 1773, o museu do Louvre na França em 1793, Museu Indiano em 1814 na Índia, no Brasil em 1818 o Museu Nacional. Sim o Museu Nacional, aquele que na noite de 02 de setembro de 2018 acompanhamos arder em chamas, destruindo quase a totalidade do acervo histórico e científico com vinte milhões de itens catalogados, além de seu edifício histórico que já foi residência oficial dos Imperadores do Brasil. Razão provável da tragédia: abandono e descaso político. O mesmo abandono e descaso com a Cultura que persegue nosso país desde a chegada dos portugueses. Em tempo: não foi descobrimento, foi chegada. 




A ETIMOLOGIA DO NOME BOAZ - Leonardo Sousa de Freitas



Resumo

Esta pesquisa objetiva discutir especificamente a etimologia do nome Boaz (בעז, em hebraico), abordando suas diferentes interpretações e dissertando sobre as reflexões e conclusões do autor sobre seu significado.

Introdução

Etimologia (do grego antigo ἐτυμολογία, composto de ἔτυμος [verdadeiro, real] e -λογία [estudo]) é um campo de estudo da linguística que trata da história ou origem das palavras e da explicação do significado de palavras através da análise dos elementos que as constituem [1]. Em outros termos, é o estudo da composição dos vocábulos e das regras de sua evolução histórica [2].

A história mostra que, no caso dos hebreus, era costume antigo a práxis de atribuição a pessoas de nomes com significados particulares à sua história ou à sua predestinação, seja de forma direta ou através da composição de palavras. O nome Jacó, por exemplo, deriva da raiz hebraica “kov”, que significa “agarrar pelo calcanhar”, “enganar”, “conter”, “ficar” ou “suplantar”. Assim foi chamado porque saiu do ventre da mãe segurando o calcanhar do irmão gêmeo Esaú, que nascera primeiro [3]. Após uma luta com um ser angelical, o anjo lhe ordenou que mudasse seu nome para Israel, que significa algo como “aquele que luta com Deus”. As doze tribos de Israel vieram portanto, literalmente, dos filhos de Israel. 

O Rei Davi foi bisneto de Boaz, por sua vez descendente de Jacó (Mt 1,1-17). Por intermédio do profeta Natã, disse o Senhor a Davi: “Tua casa e o teu Reino serão firmes para sempre” (2Sm 7, 16). Vale a atenção para a semântica da “casa firme”, que também pode ser entendida como “casa forte”.

Revisão da literatura

Há diversos artigos e estudos maçônicos e profanos sobre Boaz. Encontra-se tanto somente extratos das passagens bíblicas formando uma narrativa histórica [4] como interpretações teológicas no sentido de atribuir a Boaz qualidades como bondade, generosidade, respeito e fidelidade [5] [6].

Assim sendo, todos esses trabalhos exploram a figura de Boaz, suas passagens bíblicas ou seu significado maçônico. Em relação especificamente à palavra Boaz, William Almeida de Carvalho, em sua monografia “Discussões Bíblicas: Booz ou Boaz?”, investiga a bíblia em hebraico para dissertar sobre as nomenclaturas Boaz e Booz, considerando que a palavra é adotada de ambas as maneiras, a depender do foro de leitura. Não se encontrou, porém, qualquer monografia, artigo ou estudo que discuta com profundidade a etimologia do nome Boaz. Mostram-se aparentemente inéditos, portanto, o objeto e escopo desta pesquisa.

Preâmbulo - Citações bíblicas

Primeiramente, o Dicionário Bíblico Online [7] mostra que o nome Boaz aparece em 24 versículos na Bíblia Sagrada, em um total de 28 vezes. É nos livros de Rute em que consta o maior número de citações: são 20 delas, o que se deve ao relato de sua história com a moabita que dá nome ao livro. I Crônicas, Mateus e Lucas, que tratam especificamente da genealogia de Boaz, tanto de sua ascendência como descendência, juntos somam 6 citações, e II Crônicas possui uma citação, que revela Boaz como inspiração para o nome da coluna à esquerda da entrada do Templo de Salomão.

Trata-se, portanto, de nome bíblico, público, não exclusivo da literatura maçônica.

Pesquisa em Português

Alguns autores relatam a semântica do nome como "nele está a força", "nele há rapidez" ou "rapidez" [8]. João Anatalino, no livro “Conhecendo a Arte Real”, relata que, no alfabeto hebraico, Boaz significa firmeza e Jackin força [9].

Exame nos rituais de iniciação do Grande Oriente do Brasil igualmente revelaram diferentes usos do nome Boaz. No Ritual de Emulação, o nome Boaz é descrito como “em força”. O Rito Escocês Antigo e Aceito e o Rito Brasileiro o utilizam, mas não descrevem seu significado. O Rito Schröder, o Rito Moderno e o Rito Adonhiramita não o adotam em suas cerimônias, substituindo-o por diferentes nomes, fora do escopo desta pesquisa. 

 Pedro Juk relata que “segundo estudiosos, o nome BOAZ, se utilizado como termo complementar de JAQUIM (nome da outra Coluna e que significa “Ele”, ou “Deus” estabelecerá) forma a seguinte frase: “Ele” (Deus) estabelecerá com força” [10]. Não são citados, porém, quais seriam esses estudos.

 Também foi encontrado o significado de “alvoroço, grande alegria” [11]. A mesma fonte alega que, em algumas culturas africanas, Boaz é um nome que significa “luz” ou “clareza”. Essas interpretações, como a de “vivacidade” [https://www.apologeta.com.br/boaz/] não apresentaram quaisquer lastros na literatura.

Pesquisa em Inglês, Italiano, Espanhol, Francês e Alemão

A pesquisa anglófona revelou que autores bíblicos [12] e no “Emulation Ritual” [13] seu significado é dito como "em força" ("in strength"). 

Em outros rituais de iniciação ingleses, como no ritual “West end” [14], são adotadas a mesma terminologia e etimologia: “in strength”. No ritual de iniciação da “Gran Loggia Regolare d’Italia” o significado, em Italiano, é simplesmente “Forza” [15]. Já no ritual do “Rito Escoces Antiguo Y Aceptado de la Gran Logia de España”, em Espanhol, adota-se o significado “Con fuerza” [16]. Diversos rituais de iniciação pesquisados em Francês e em Alemão, tal qual seus equivalentes em português, não a adotam em suas cerimônias.

No versículo da Wikipedia sobre Boaz [17] é dito que o nome pode expressar tanto velocidade como força. Viria de be'oz (em/na força de) ou "bo'oz" (na força dele). A raiz "zz" significaria "to be strong"(ser forte).

Na lista de significados dos nomes nas Sagradas Escrituras (“Meanings of names in Holy Scriptures”) da Abrahamic Study Hall simplesmente se lê “strength” (força) [18]. Igual significado é relatado por Emery Barnes no The Journal of Theological Studies [18a]

Pesquisa em Hebraico

Assim, dadas as incoerências com as explicações nos diferentes idiomas, se fez necessária exploração da etimologia da palavra em hebraico, idioma cuja Bíblia serviu de origem para as diversas traduções já abordadas. O alfabeto hebraico é ilustrado na Figura 1:

Figura 1: alfabeto hebraico


É importante ressaltar que a palavra Boaz não existe em hebraico e o nome (בעז) só pode ser explicado como um composto [19], como se segue. 

Considerando que, em hebraico, se lê da direita para a esquerda, a soletração literal do nome Boaz em hebraico é Bet - Vav - Ayin - Zayin. 

A letra Ayin, como se vê no alfabeto, não se pronuncia, tal qual a letra H, em muitos casos, na língua portuguesa. Assim, em hebraico, o nome é escrito apenas como Bet - Ayin - Zayin, conforme Figura 2.

Figura 2: “O que o Senhor quer dizer com BOAZ” em hebraico (em tradução livre)


ב (a letra Bet, ilustrada na Figura 3) se trata de um prefixo, que significa “in, within or by means of” (“em, dentro ou por meio de”).

Figura 3: a letra Bet



A segunda parte do nome, (עזז), vem do verbo hebraico azaz, que significa “to be strong” (ser forte). A vertente de interpretação de azaz como “swiftness” (rapidez, velocidade), segundo o BDB (Brown-Driver-Briggs) Theological Dictionary, publicação de referência sobre a bíblia em hebraico e em aramaico, aponta para uma possível interpretação da etimologia desse verbo em árabe, em cuja interpretação remeteria a um cavalo [20]. Abordagem semelhante é feita pela The Library of Biblical Literature, que aponta activity (atividade) como um significado para Boaz oriundo da raiz árabe do verbo supracitado [21].

Em outra frente, são dadas interpretações para cada letra, isoladamente, do nome Boaz. Dentre outras interpretações, Bet denota uma casa e representa o conceito universal de um recipiente [22]. Ou seja, aquilo que recebe algo.

Discussão

Mesmo em Português brasileiro a tradução de Boaz já foi feita de formas diferentes dentro de um mesmo rito. No ritual de emulação (chamado de Rito de York do GOB) do Grande Oriente do Brasil, em sua versão de 2009, seu significado era “em solidez”. Na revisão desse ritual de 2020, considerando que foram apontadas algumas correções com o intuito que a versão brasileira do Emulation Ritual ficasse mais próxima à versão original publicada pela Grande Loja Unida da Inglaterra, o significado de Boaz foi alterado para “em força”.

Analisando as diferentes traduções em outras línguas e a etimologia do nome em hebraico, a tradução de בעז como “in strength” ou “em força”, com o uso do prefixo in/em, a despeito das citações literárias em contrário [23], soa como uma tradução literal que gerou um neologismo. No entendimento do autor a expressão não faz sentido, tanto em Português como em Inglês. Não foram encontradas referências de uso de um prefixo dessa forma, nesse contexto, em ambas as línguas. Vale ressaltar que uma etimologista e algumas pessoas que já moraram na Inglaterra confirmaram ao autor essa interpretação. 

No âmbito bíblico ou maçônico, mesmo com a junção dos significados das duas colunas da entrada do Templo de Salomão, imaginando a expressão “em força” como parte de uma expressão maior, sozinha sem sentido completo, a expressão “Ele estabelecerá em força” segue sem coerência gramatical, apesar de menções ao sentido de que Deus estabelecerá de forma incisiva ou firmemente o Reino de Israel [24].

Mesmo considerando apenas a tradução do Emulation Ritual do inglês para o português, sem considerar o erro da tradução do original hebraico, “em força” não parece ser a terminologia mais adequada. Simplesmente “Força”, "Ser forte" ou traduções semelhantes parecem ter mais sentido. A tradução mais harmônica encontrada nesta pesquisa foi "a força está nele" ("the strength is within him", sendo “bo” = “in him” e “az” = “strength”) [25, 26]. Ao cabo, maçonicamente essa tradução faz mais sentido que as demais, considerando a semântica das forças das colunas que, simbolicamente, sustentaram o Templo de Salomão (isto porque consta que essas duas colunas não teriam efetivamente sustentado nenhuma parte da construção [27]).

No caso do Ritual de Emulação publicado pela Grande Loja Unida da Inglaterra, tendo em vista que seu texto segue inalterado desde 1823 [28], fica evidente uma importante dificuldade para qualquer tipo de correção histórica. Apesar desse embaraço, outrossim, ser uma realidade brasileira, como no caso da discussão sobre o uso do Ritual de Emulação como “Rito de York” no âmbito do Grande Oriente do Brasil, a tradução do Emulation Ritual sofreu diversas alterações e adaptações recentes, o que mostra alguma abertura para novas correções, como a proposta nesta pesquisa, em revisões futuras.

Conclusão

As evidências apontam que a tradução do significado do nome Boaz do hebraico para o inglês como “in strength”, e consequentemente para o Português como “em força” pode não ser a mais adequada, em detrimento de traduções menos literais mas que fariam mais sentido, como "the strength is within him" (“a força está nele”) ou, simplesmente, “strength”(“força”), tal qual no ritual da “Gran Loggia Regolare d’Italia”. Há de se convir, porém, que o Emulation Ritual, publicado em 1813, após cerca de 100 anos de discussões e conciliações, não só ritualísticas mas, principalmente, políticas (considerando a delicada e morosa junção das duas Grandes Lojas então existentes na Inglaterra), foi produzido em um contexto muito diferente do atual em que, apenas com um aparelho com acesso à internet, tem-se acesso a boa parte do conhecimento da humanidade, tanto os superficiais como os profundos. Há de se compreender, portanto, eventuais falhas metodológicas na tradução dos termos bíblicos para o inglês feita nos séculos XVIII e XIX.

Este trabalho, apesar de ter como mote a discussão etimológica do nome Boaz, teve por plano de fundo um processo de aprimoramento pessoal. A revisão da literatura, a pesquisa bíblica e a leitura e sistematização dos diversos rituais de aprendiz, tanto em Português como nos demais idiomas, serviram tanto como um enriquecimento do conhecimento geral e maçônico do autor como de construto para um maior entendimento dos caminhos da evolução desses rituais em seus respectivos países. Considerando que a maior parte do antigo testamento foi escrita em hebraico [29], estudo intensivo desse idioma permitiu ao autor maior acurácia na condução da proposta deste artigo, considerando a assertividade advinda da leitura e interpretação das escrituras em sua versão original

Referências 

[1] https://dicionario.priberam.org/etimologia

[2] ALMEIDA E COSTA, J.; SAMPAIO E MELO, A. (coord.). Dicionário da Língua Portuguesa. 7ª ed. revista e ampliada. Porto: Porto Editora, 1995.

[3]https://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/399273-conheca-a-origem-do-nome-israel-leia-trecho-de-livro.shtml

[4] https://estiloadoracao.com/quem-foi-boaz-na-biblia/

[5] https://www.bibliaon.com/boaz_homem_de_deus/

[6] https://ultimato.com.br/sites/jovem/2017/06/08/rute-boaz-e-uma-historia-de-amor-maior/

[7] https://www.casadosenhor.com.br/dicionario/palavra.php?palavra=BOAZ&id=691

[8] https://minhabibliaonline.com.br/boaz-na-biblia

[9] https://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/3269112

[10] http://pedro-juk.blogspot.com/2020/10/boaz-significado-da-palavra.html

[11] https://www.significadodonome.com/boaz/

[12] https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1200000779

[13] https://www.stichtingargus.nl/vrijmetselarij/ovo_remul1.html

[14] https://www.stichtingargus.nl/vrijmetselarij/s/taylors_r1.html

[15] https://www.stichtingargus.nl/vrijmetselarij/s/glri_r1.html]

[16] https://www.stichtingargus.nl/vrijmetselarij/s/espana_r1.html

[17] https://en.wikipedia.org/wiki/Boaz#:~:text=The%20etymology%20of%20the%20name,preferred%20%22of%20sharp%20mind%22

[18] https://www.abarim-publications.com/Meaning/Boaz.html

[18a] Barnes, W. Emery (1904). Jachin and Boaz. Journal of Theological Studies. 447–451.

[19] https://www.abrahamicstudyhall.org/2021/02/26/meanings-of-names-in-the-bible/

[20] https://hebrewcollege.edu/wp-content/uploads/2018/10/BDB.pdf , p.362

[21]

[22] https://gabrielelevy.com/pages/the-letter-bet

[23] https://hebrewcollege.edu/wp-content/uploads/2018/10/BDB.pdf , p.363

[24] https://reavivadosporsuapalavra.org/2013/02/08/i-reis-7-as-colunas-do-templo-jaquim-e-boaz/

[25] https://versiculoscomentados.com.br/index.php/estudo-de-1-reis-7-21-comentado-e-explicado/]

[26] Bíblia Ave Maria. https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/i-reis/7/

[27] https://www.behindthename.com/bb/fact/25748

[28] https://en.wikipedia.org/wiki/Emulation_Lodge_of_Improvement

[29] https://www.franciscanas.org.br/noticias/a-biblia-foi-escrita-em-tres-linguas/






QUANDO A FORMA ENGANA A ESSÊNCIA - João B.



“Quem acolhe um lobo julgando tratar-se de cão, descobrirá tarde demais que não é o latido que o define, mas os dentes”

Às vezes, abrimos a porta a alguém que não iniciou pelo nosso caminho iniciático; chega por transferência de outra, tudo regular, tudo conforme. 

Inquirido e Iniciado por outros irmãos. 

Confiamos, porque queremos confiar, porque a confiança é parte do que somos e, talvez, porque baixamos a guarda quando um Irmão nos é apresentado por outro.

O processo foi cumprido, não houve irregularidade formal, mas falhámos no essencial. 

Devíamos ter esperado, devíamos ter observado, devíamos ter conhecido antes de acolher. 

Não o fizemos. 

Era prático, parecia seguro, mas principalmente porque confundimos silêncio com humildade, e dicção com profundidade.

Esse Irmão, ou ex-irmão, antigo irmão, “reprofano”, lia atas como ninguém, também pranchas o deveria fazer, mas nunca as ouvi. 

Tinha boa voz, tom grave, ar seguro, mas não construía um pensamento, não ligava ideias, nunca debateu para aprender, apenas para minar.

Maltratava Aprendizes, deixava Companheiros desmotivados, e guardava sempre os comentários mais venenosos para os bastidores. 

Era cortês com os Mestres, mas pelas costas afiava cada palavra.

Os mais novos sentiam-se expostos, por vezes até aterrorizados, vi-me obrigado a intervir para que situações não escalassem. 

E durante demasiado tempo, deixámos andar. 

Porque a Loja estava habituada a confiar, porque ninguém queria ser o primeiro a desconfiar. 

Até que as mensagens se acumularam, e a serpente revelou a pele.

Quando decidiu sair, fê-lo sem confronto. 

Tentou voltar, por outra porta, para outra Loja

E aí, não hesitámos. 

A votação foi rápida, clara, unânime, definitiva, sem dúvidas.

Não pelo que foi, mas pelo que sabíamos que voltaria a ser, não poderíamos permitir que outros Irmãos passassem pelo que nós passamos. 

Não seríamos cúmplices de não fazer nada quando o deveríamos ter feito. 

Já tínhamos tido uma oportunidade e desperdiçamo-la, desta vez em vez de esperar para ver se o fogo ateava, não demos fósforos para que.

Procurou depois abrigo noutro espaço, fora da nossa Obediência, onde as regras são outras. 

Aí já nada podemos fazer, mas a nossa lição está aprendida.

*Este texto não é sobre ele, é sobre nós.* 

Sobre como até uma Loja experiente pode falhar; sobre como até entre colunas bem assentes pode rastejar o que nos divide. 

"E sobre como há momentos em que proteger a cadeia é saber dizer não, meter uma bola preta e encerrar a questão." 

Como é do conhecimento de todos, cada macieira dá fruto em abundância, mas de vez em quando também uma maçã podre. 

É da sua natureza. 

A nossa tarefa é saber colhê-las com discernimento, e quando a serpente aparece, não é com violência que se responde, mas com firmeza, vigilância e memória.

Que esta lição nos fique gravada. 

A forma engana, mas a essência, mais cedo ou mais tarde, revela-se.



fevereiro 06, 2026

MAÇONARIA–UMA AVENTURA QUIXOTESCA, OS MODERNOS CAVALEIROS - João Anatalino


Nas Constituições de Anderson não há nenhuma referência à cavalaria como legatária de tradições à Maçonaria. 

Inversamente, Anderson parece acreditar que foi a Maçonaria que influenciou a cavalaria e não o contrário. 

Isto explica-se pelo fato de que a Maçonaria de Anderson, na verdade, é aquela que vem diretamente das Old Charges, praticante dos ritos herdados dos pedreiros livres, enxertada com algumas tradições de origem gnósticas e herméticas. 

Na época das Constituições, conforme se deduz do próprio preâmbulo escrito pelo autor, a Maçonaria praticava somente o que hoje conhecemos como Loja Simbólica, e os seus ritos abrangiam apenas o que chamamos de Grau de Aprendiz e de Companheiro, sendo este último o que modernamente chamamos de Mestre. 

Mestre, nas Lojas da época, era apenas o Venerável. 

Foi mais tarde, com a disseminação da chamada Maçonaria escocesa, que os graus superiores foram desenvolvidos, desdobrando-se a Lenda de Hiram e incluindo motivos cavalheirescos, extraídos principalmente das tradições cultivadas pelas Ordens fundadas pelos cavaleiros cruzados durante as lutas pela conquista de Jerusalém. 

Criaram-se então os graus superiores (Lojas Capitulares, Filosóficas e Administrativas), como estrutura curricular composta de trinta e três graus, que caracteriza hoje as Lojas que praticam o chamado Rito Escocês Antigo e Aceito.

A origem da Maçonaria moderna, a que hoje chamamos de especulativa, é muito obscura e nunca foi recenseada a contento. 

Existe um certo consenso que ela tenha começado em 1717, em Londres, com a união das quatro Lojas londrinas, criando um Grande Oriente. 

O qual, através de um trabalho de negociação, estabeleceu uma organização para o universo maçónico, até estão esparso e dividido, onde cada grupo praticava o ritual que bem lhe conviesse.

Mas é evidente que, antes dessa sistematização empreendida pelos maçons ingleses, a Maçonaria já era uma tradição secular.

Isto é evidente pela própria existência dessas Lojas londrinas, que na época da unificação já existiam há pelo menos cinquenta anos, e principalmente pela prática, que fora da Inglaterra, já se fazia, das tradições maçónicas. 

A Maçonaria, dita especulativa, na Inglaterra, parece ter nascido a partir da fundação da chamada Royal Society, famosa associação fundada em 28 de Novembro de 1660, para promover o estudo e a divulgação do conhecimento científico. 

Esta sociedade, que foi patrocinada pelo próprio rei Charles I, contava entre os seus membros diversos cientistas famosos, como Robert Boyle, John Evelyn, Robert Hooke, William Petty, John Wallis, John Wilkins, Thomas Willis o famoso arquiteto Christopher Wren e o não menos famoso Isaac Newton, que mais tarde viria a tornar-se seu presidente.

Todos estes senhores eram “cavalheiros” ingleses com títulos nobiliárquicos de grande expressão na sociedade inglesa, e a sua reunião numa espécie de “clube” de elite intelectual foi uma consequência do clima vivido na época, onde a Reforma protestante avançava em todos países da Europa e a Igreja Católica atacava com a sua Contra Reforma, numa luta sangrenta pelo controle dos espíritos. 

Assim, a proposta dos “cavalheiros” ingleses, que era o estudo e o desenvolvimento das ciências e das artes, com liberdade de consciência e sem a limitação que as religiões oficiais impunham, ganhou um importante núcleo de aplicação e disseminação nas Lojas maçónicas. 

E essa ideia, que estava limitada aos cavalheiros da Real Sociedade, e a pouquíssimos intelectuais que lograssem ingresso nesse fechadíssimo clube, espalhou-se pela sociedade inglesa, democratizando e popularizando uma prática que logo se iria tornar um dos mais influentes movimentos culturais do mundo.

Logo a Maçonaria deixaria de ser um grupo exclusivo de elementos cooptados na elite social para se tornar uma organização de grande apelo popular. 

 Nasce a nova Cavalaria

A ideia que está na base da Maçonaria moderna, dita especulativa, está exatamente nessa cultura de “cavalheirismo”, muito própria da civilização europeia. 

A antiga cavalaria medieval, com os seus barões e cavaleiros, e a sua pretensão de nobreza e eletividade dentro de uma sociedade fechada em dogmas de discutível espiritualidade, era uma tradição praticamente morta. 

Não havia mais cavaleiros, no estilo Don Quixote, que a sociedade pudesse modelar como heróis e defensores dos pobres e oprimidos, e nos quais as virtudes mais nobres dessa sociedade pudesse ser emulada. 

Assim, a ideia de uma nova “cavalaria”, que congregasse os elementos de escol da sociedade, ou seja, as pessoas de bem, indivíduos de caráter probo, de bom gosto e costumes morigerados, no dizer do Cavaleiro de Ramsay, ganhou terreno entre os ingleses, em fins do século XVII e começo do século XVIII.

Como estrutura organizacional adotou-se a fachada de um clube fechado, com estatutos e regras de uma verdadeira Irmandade, semelhante às que a Igreja Católica disseminou pelo mundo. 

E como base cultural foi mantida a tradição dos antigos pedreiros e construtores, tradição essa que já vinha de muitos séculos e comportava elementos de espiritualidade bastante análogos àqueles que os novos “cavaleiros” cultuavam nas suas crenças particulares.

A identificação da Maçonaria com os antigos cavaleiros cruzados, especialmente os templários, os hospitalários e os cavaleiros teutónicos, veio depois, quando a Ordem se espalhou pela Europa e territórios do Novo Mundo. 

E quando os autores maçons começaram a produzir uma literatura temática, centrada em mitos e tradições esotéricas e históricas, para fins de mitificar e criar para a Maçonaria uma aura de misticismo e mistério.

Nos seus primórdios, esta nova Maçonaria, chamada especulativa, tinha uma identificação tão grande com a tradição cavalheiresca, que o próprio Napoleão, feito Maçom aceito por razões puramente políticas (como aliás também aconteceu com Dom Pedro I, do Brasil, Frederico Guilherme da Prússia e outras autoridades), ao se referir aos maçons na França, disse que eles gostavam de brincar de cavaleiros. 

Parece que ele via a Maçonaria como uma aventura quixotesca, que não obstante, poderia representar algum perigo para ele, pois que durante todo o tempo do seu governo, manteve os maçons sob uma estrita vigilância e chegou até a praticar alguns atos repressivos contra a Ordem. 

Não obstante, as Lojas maçónicas mostraram ser um bom refúgio para todos os espíritos livres pensadores da época. 

Não era uma seita religiosa nem um clube político. 

Intelectuais com ideias religiosas bastante heterodoxas, assim como artesãos, militares, intelectuais amantes da liberdade de expressão, e principalmente pesquisadores das ciências naturais (alquimistas e outros), encontraram na Maçonaria o lugar ideal para a livre manifestação das suas ideias, sem o risco de sofrerem represálias, ou serem reprimidos como heréticos.

Não surpreende que, num ambiente assim, tenham nascido ideias religiosas que a religião oficial considerava afrontosas à sua doutrina, tanto que a Maçonaria foi colocada no rol das heresias e como tal condenada, tanto por católicos quanto por protestantes. 

E que tenha sido perseguida por muitos governos, especialmente os de caráter totalitário, pois dentro das Lojas maçónicas nasceram muitos movimentos e conspirações que influenciaram a história política da maioria das nações ocidentais. 




HIPOCRISIA - Sidnei Godinho



Dias desses ouvi algo interessante que fez refletir o quanto somos inocentes egoístas nas relações interpessoais.

E o mais curioso é a naturalidade como uma pessoa se expressa, na certeza de que está fazendo algo bom e natural, quando, na verdade, apenas enseja justificar seu apelo a si mesma. 

A frase soou na conversa: "Eu a (o) amo do meu jeito."

E veio o complemento dissuasório: "Ela (e) sabe disto, então não devia fazer drama."

Por algum tempo o diálogo prosseguiu sobre o assunto que, naquele momento, já perdera o significado na inquietude reflexiva daquelas palavras.

A incapacidade de se doar em uma relação, por si só inviabiliza a reciprocidade, mas a escusa vai além ao transferir a culpa do fracasso ao outro por "dramatizar" o abandono e a insensibilidade.

Em rápida alegoria é como convidar seu dito melhor amigo, vegano, para um almoço e servir um churrasco de picanha de angus.

E ao final ainda criticá-lo porque gastou uma fortuna e ele não comeu nada. 

É nítido que seu objetivo não era agradar o outro, mas servir a si mesmo e ainda tentar mudar o gosto, a opinião alheia.

Ainda que não haja maldade nas ações, seus efeitos são expoentes e corroem qualquer relação.

Pare por alguns minutos e analise seu conceito de Amor, ele pode ser verdadeiro, mas apenas para você e neste caso é questão de tempo para deixar de ser recíproco.

Atente para quem está ao seu lado e quando quiser demonstrar amor ou gratidão, faça o cardápio de seu convidado.

Pode ter sua picanha, mas faça a salada para seu amigo e demonstre o quanto lhe preza. 

Não precisa abandonar quem é, apenas aceitar também quem é o outro.




Sidnei Godinho

fevereiro 05, 2026

800.000 ACESSOS NESTE BLOG - Michael Winetzki

 


            Na data de hoje ultrapassamos o número mágico de 800.000 (oitocentos mil acessos deste blog, que tem um nome tão difícil e uma temática tão específica.

            Os milhares de irmãos maçons que nos honram com seu acesso diário recebem textos e trabalhos de alguns dos mais eminentes intelectuais da Ordem no país, e não somente sobre maçonaria, mas de maneira geral sobre história, arte, ciência, cultura, e outros temas que enlevam e elevam o espírito.

        Dá trabalho para fazer mas o retorno proporciona forte carga de motivação para que todos os dias eu dedique algum tempo à seleção e publicação das postagens, e com elas continue a estudar e aprender maçonaria.

        Muito obrigado a todos e rumemos céleres para a casa do milhão. 

JULIO DE CASTILHOS - O PATRIARCA DO RIO GRANDE DO SUL



Se Getúlio Vargas foi o "Pai dos Pobres", Júlio de Castilhos (1860–1903) foi o "Pai do Pensamento Político Gaúcho". Ele é o arquiteto da estrutura de poder que permitiu ao Rio Grande do Sul projetar nomes como Vargas, Oswaldo Aranha e João Goulart para o cenário nacional.

​Aqui estão os pontos fundamentais para entender quem ele foi e por que ele importa:

​1. O Patriarca do Rio Grande

​Castilhos foi o principal líder do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Ele governou o estado em dois períodos (1891 e 1893–1898), mas sua influência foi muito além dos seus mandatos. Ele estabeleceu uma hegemonia política no Rio Grande do Sul que durou quase 40 anos, conhecida como o "Castilhismo".

​2. A Constituição de 1891 (RS)

​Enquanto o resto do Brasil adotava uma democracia liberal (no papel) após a Proclamação da República, Castilhos escreveu uma Constituição específica para o Rio Grande do Sul que era única:

​Presidencialismo Forte: O governador (chamado de "Presidente do Estado") tinha poderes quase absolutos.

​Desprezo pelo Legislativo: Para Castilhos, o parlamento era um lugar de discussões vazias. O Executivo deveria decidir e agir.

​Eficiência Administrativa: Foco total na ordem, no equilíbrio das contas públicas e no progresso material.

​3. A Ideologia: O Positivismo

​A base do pensamento de Castilhos era o Positivismo de Auguste Comte. Ele acreditava que a sociedade deveria ser governada por uma "ditadura científica" ou esclarecida, onde o líder guia o povo rumo ao progresso, evitando o caos das disputas partidárias.

​É daqui que vem o lema da bandeira do Brasil: "Ordem e Progresso". No Rio Grande do Sul, Castilhos levou isso ao pé da letra, criando um Estado técnico e burocratizado.

​4. Conflitos e a Revolução Federalista

​O estilo centralizador de Castilhos não passou sem resistência. Ele foi o pivô da Revolução Federalista (1893–1895), uma guerra civil sangrenta entre os "Pica-paus" (seguidores de Castilhos) e os "Maragatos" (oposição que queria mais parlamentarismo e menos poder central). Foi um dos conflitos mais violentos da história do Brasil, famoso pela prática da degola de prisioneiros.

​5. O Mentor de Getúlio Vargas

​Júlio de Castilhos morreu jovem, aos 43 anos, mas deixou "herdeiros" políticos. O principal deles foi Borges de Medeiros, que governou o estado por décadas e foi o mentor direto de Getúlio Vargas.

​Vargas pegou o modelo de Castilhos (Estado forte, intervenção na economia e modernização técnica) e o aplicou em escala nacional durante o Estado Novo.

​Resumindo: Sem Júlio de Castilhos, não existiria o fenômeno Getúlio Vargas. Castilhos criou a "máquina" política e a ideologia que Vargas usaria para mudar o Brasil em 1930m 

Fonte: Mateando curiosidade #tusabiatche

TUDO SE APRENDE, NADA SE ENSINA - Paulo M;



O mundo só se nos mostra pelos nossos sentidos, e a complexidade e a variabilidade da realidade ultrapassam a nossa capacidade de absorver a individualidade de cada ocorrência. 

Para lidar com essa complexidade generalizamos, sintetizamos e normalizamos, considerando, de acordo com a nossa vivência, serem idênticas coisas que, na verdade, são ligeiramente diferentes. 

Este mecanismo faculta-nos mais informação, que por sua vez nos permite entender, antecipar e reagir melhor àquilo que sucede em nosso redor. 

No entanto, não há duas vidas iguais; não há duas experiências do mundo iguais; não há duas realidades iguais. 

Por isso é que o mundo, tal como o apercebemos, é, mesmo que imperceptivelmente, distinto do mundo tal como é apercebido por qualquer outra pessoa. 

Assim, porque cada um é fruto da visão que tem do mundo, é natural que seja única e irrepetível a matriz que estabelece a própria conceção identitária de cada um de nós.

Assim, podemos dizer que a nossa identidade passa pelas convicções que decorrem da nossa experiência ao longo da nossa passagem pelo mundo. 

Ora, essas nossas convicções – especialmente a política e a religiosa – são um pouco como a nudez física. 

Assim, há quem, (à semelhança dos nudistas – e, até, dos exibicionistas) esteja disposto a desnudar a sua intimidade do ser, do crer e do pensar, expô-la e questioná-la. 

E, no outro extremo, há quem (à semelhança de quem nem ao médico revela a nudez) sinta como agressão o mero questionamento das suas convicções, sentindo que tal abalaria a delicada construção interna da sua relação consigo mesmo, com o mundo e com os outros.

Uma Loja maçônica é um local onde poucas dezenas de pessoas que se reencontram vezes e vezes a fio e que sabem que podem “baixar as defesas” e, sem receio, expor o seu ser, o seu saber e a sua experiência para benefício dos demais. 

Cada um apresenta, na medida que entende fazê-lo, e mediante o seu grau de conforto em revelar-se, a sua visão do mundo e a súmula que dela fez – a sua pessoal e única experiência – com o intuito de que cada um dos demais possa ver o mundo por outros olhos e retire daí os ensinamentos que entenda.

Atacar essa matriz assim exposta seria atacar a pessoa no que tem de mais íntimo, de mais pessoal, de mais sagrado. 

Por isto, uma das primeiras coisas que se aprende na Maçonaria é a respeitar a diferença e a diversidade, sejam estas de pontos de vista, de crenças ou de convicções. 

Cada um dá um pouco de si; quem quer, colhe daí o que lhe aprouver. 

Ninguém é obrigado a aderir a conclusões conjuntas, a versões definitivas, a consensos alargados; estes procuram-se apenas até onde é possível fazê-lo sem atropelar a convicção e a vontade de cada um.

É esta uma das formas através das quais a Maçonaria toma homens bons e os torna melhores. 

É assim que, em Maçonaria, tudo se aprende e nada se ensina. 

E é assim, e por isso, que, em Maçonaria, se aprende a calar tudo quanto possa perturbar este equilíbrio.



fevereiro 04, 2026

AS INCRÍVEIS FÉRIAS MAÇÓNICAS - José Castellani




“Férias maçónicas” é uma invenção brasileira, deste século e que vem sendo cada vez mais “esticada”, para satisfação daqueles que crêem que trabalho maçónico é estafante. 

No Grande Oriente do Brasil temos, o alentado período de 30 dias – 20 de Dezembro a 20 de Janeiro – e, na Grande Loja, o período de 20 de Dezembro a 6 de Janeiro -, para que os “cansados” Maçons repousem do seu pesado trabalho simbólico de operário. 

Isso, todavia, nem sempre aconteceu.

Consultando antigos livros de atas, pode-se constatar que as Lojas não paravam os seus trabalhos, nem no Natal ou na passagem de ano. 

Tomemos, para exemplo, alguns casos:

• Na Loja “Amizade”, de São Paulo, dois padres (padres, vejam bem!), Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade e José Joaquim dos Quadros Leite, foram Iniciados a 25 de Dezembro de 1832; e, no dia 30 de Dezembro, foi Iniciado o padre José Joaquim Rodrigues. 

• E o Templo da Loja, à rua Tabatinguera, foi inaugurado num dia 3 de Janeiro de 1873.

• A 8 de Janeiro de 1890, era aprovado, em sessão económica, um voto de congratulações, pela escolha do marechal Deodoro da Fonseca para o Grão-Mestrado do Grande Oriente do Brasil.

• A Loja “Fé e Perseverança”, de Jaboticabal, promoveu a sua Sessão de Regularização, a 5 de Janeiro de 1890.

• A Loja “Monte Líbano”, de São Paulo, realizava uma Sessão Magna para Iniciação de Júlio dos Santos Martins, português, agente comercial, a 31 de Dezembro de 1914.

• A Loja “União Paulista”, de São Paulo, Iniciava, a 7 de Janeiro de 1924, o negociante italiano Francisco Maurano. 

• A mesma Loja, a 27 de Dezembro de 1928, Iniciava o comerciante italiano Carlos Castellani.

• A Loja “Fraternidade”, de Santos, que, em 1915, fez fusão com as Lojas “Renascença II” 

A partir do final do século passado, algumas Lojas começaram a fazer um pequeno hiato nos seus trabalhos, da véspera de Natal até ao dia de Reis, a 6 de Janeiro. 

Posteriormente, porém, iria haver um aumento, numa Obediência, que se iria estender às demais e até ser esticado, de forma pitoresca: 

_ A 25 de Janeiro de 1955, último dia dos festejos do 4° Centenário da cidade de São Paulo, era inaugurado o Edifício-sede do Grande Oriente de São Paulo, à Rua São Joaquim, cuja construção fora iniciada em 1948. 

Para os padrões da época, o prédio era opulento: dois mil trezentos e vinte metros quadrados de construção; quatro Templos, para trabalho de 24 Lojas e mais um Templo nobre; um subsolo e mais três andares, servidos por elevador atlas.

Templos aerificados, através de um sistema de insuflação de ar fresco, produzido por ventiladores centrífugos de baixa pressão e rotação, com motores eléctricos de 5 a 10 HP, para expulsar o ar viciado e quente, que era aspirado para o exterior, através de ventiladores bi-helicoidais, com funcionamento automático.

Abastecimento de água, através de dois reservatórios de concreto, um no subsolo, com capacidade para 10.000 litros e outro no último andar, com capacidade para 4.000 litros. 

Dez instalações sanitárias completas; oito Câmaras de Reflexão, com dispositivo para se ver, de fora, o que se passa dentro, sem que, do interior, se perceba.

Evidentemente, um prédio tão grande e complexo é de difícil manutenção. 

E esta dificuldade é agravada pelo grande número de pessoas que por ali circulam e que ajudam a deteriorar a construção. 

E foi isso que aconteceu, em pouco tempo, pois, menos de três anos depois da sua inauguração, o edifício já necessitava de reparos. 

Diante disso, o Grão-Mestre Benedito Pinheiro Machado Tolosa, professor de Obstetrícia da Faculdade de Medicina de S. Paulo, emitia, a 9 de Dezembro de 1957, o Acto no 146, estendendo as férias maçónicas – que, então, iam de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro – até ao dia 18 de Janeiro, diante da necessidade de se proceder a reparos, limpeza geral e pintura parcial do edifício sede. 

Nos dois anos seguintes, pelo mesmo motivo, elas foram estendidas até ao dia 20.

E a coisa acabou, rapidamente, se tornando “tradicional”, mesmo que os motivos tenham sido esquecidos e mesmo que nem se pense em reparos e pinturas, chegando, mesmo, até às Constituições do Grande Oriente do Brasil, as quais, antigamente, eram omissas, não fazendo qualquer alusão a férias. 

Acabou, além disso, chegando a outras Obediências, que, até, talvez adorando a ideia, esticaram mais ainda as tais “férias”, dando, inclusive, um “extra” no mês de Julho, como se os Maçons fossem aluninhos de escolas infanto-juvenis, com direito a férias de Verão e férias de Inverno. 

Os maus exemplos, geralmente, frutificam; ou seja: passarinho que anda com morcego, acaba dormindo de cabeça para baixo.

E, até hoje, não apareceu ninguém para extirpar esta prática, que é esdrúxula, porque o trabalho maçónico é constante e ininterrupto, como o de outras entidades filosóficas, iniciáticas, assistenciais e de aperfeiçoamento do Homem. 

(seria, realmente, cómico, se a Igreja, por exemplo, entrasse em férias). 

Coisas como esta é que desgastam a Maçonaria brasileira, reduzindo-a a condição de simples clube, ou sociedade recreativa, o que contribui para corroer a sua credibilidade pública.

Como, notoriamente, o uso do cachimbo faz a boca torta, será difícil acabar com esta invenção, pois as justificativas são muitas: 

_ uns alegam que é preciso dar férias aos funcionários da Obediência e das Lojas, esquecendo-se de que qualquer empresa, ou sociedade, dá férias aos seus funcionários, sem fechar as suas portas; 

_ outros, no exercício do mais profundo egocentrismo, justificam as tais férias (inclusive as de Inverno), com a necessidade de aproveitar as férias escolares e viajar com a família, esquecendo-se – intencionalmente, é claro – de que, se os filhos têm três meses de férias escolares, qualquer trabalhador tem, no máximo, 30 dias, a não ser que seja um nababo miliardário, ou um desocupado crónico. 

Além disso, muitos Maçons, já maduros e sem filhos em idade escolar, gostariam de frequentar os trabalhos maçónicos, constantemente, mas são tolhidos pela ditadura egoísta dos que acham que, se eles não podem frequentar, os outros também não podem.

É o caso de recorrer à velha expressão: “Vai trabalhar, vagabundo“, pelo menos, na Maçonaria, já que a indolência, hoje, é marca registada nacional (basta ver os tais “feriados prolongados”).